Eram três horas da madrugada quando levantei para fazer a mamadeira para ele. Ouvi a chuva fortíssima e pensei: Bah, vou avisar o tio do transporte que hoje eu levarei o Murilo para a escola. E assim fiquei pensando até umas sete e pouco da manhã. O motivo não era a chuva e sim a vontade de adiar a decisão de que estava na hora de testar a ida do Murilo à escola, de van, sem a minha presença.
Há uma semana e meia tenho ido junto, escondida dele. Tudo corre bem. A minha sensação é de que ele irá bem, mas por outro lado é como se mais um laço, entre nós, fosse desfeito.
Às 8h40 coloquei a jaqueta no Murilo. Essa é a senha para ele saber que irá sair de casa. Abri a porta da frente e disse: Filho, cuida que o tio da van vai chegar. Poucos segundos depois a van estaciona. Vejo aquele pequeno ser, todo encasacado, de capuz, parado na porta, se preparando para sair pela primeira vez sozinho, sem a mamãe, sem o papai e com um desconhecido.
Agora não tem mais volta. Vem à minha mente uma frase que eu sempre dizia antes de ter o Murilo: "A gente cria os filhos para o mundo". Naquele momento vi o meu filho, de 1 ano e 5 anos, indo para o mundo.
Ele deu as mãozinhas para o Tio André e foi, sem olhar para trás. Diferentemente das outras vezes, em que eu simplesmente sumia e me escondia dentro da van, desta vez resolvi me despedir. Dei um beijo, desejei boa aula e esperei na chuva o pequeno Murilo ser acomodado na cadeirinha.
Achei que eu fosse ter vontade de chorar. Achei que eu fosse querer tirá-lo da van e desistir da ideia. Mas, não foi isso que aconteceu. Eu me senti feliz e orgulhosa dele.
Seus olhinhos eram de desconfiança e de curiosidade. Ele não chorou. Nos olhamos e a porta foi fechada e com ela a certeza de que eu realmente não fiz um filho para ser meu, mas para ganhar o mundo. O percurso da nossa casa até a escola é curto, mas foram os minutos mais longos já que vivi. Esperei que ele chegasse e telefonei para a escola e depois para o tio do transporte. Tudo correu bem.
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